Tarsila do Amaral iniciou a sua aprendizagem de pintura em 1917, sob orientação do pintor académico
Pedro Alexandrino.
Em 1920, mudou-se para Paris para estudar na
Academie Julian e conheceu as obras de dadaístas, futuristas e cubistas.
De passagem pelo Brasil em 1922, aproximou-se do grupo modernista que se formara na capital paulista, do qual já faziam parte
Anita Malfatti, Mário de Andrade e Oswald de Andrade >(com quem Tarsila se casaria em 1926).
No entanto, apenas após o seu regresso à Europa, em 1923, chegou às
primeiras soluções realmente originais na sua pintura, combinando as
técnicas do pós-cubismo aprendidas com
Andrë Lhote, Albert Gleizes e Fernand Léger, com uma temática e um colorido profundamente identificados com a cultura brasileira.
Entrevista à revista Veja em 1972:
Como a senhora descobriu seu talento?
TARSILA - Eu comecei a trabalhar (em São Paulo) sob
a direção de Pedro Alexandrino, e não me fez nada mal de ver que era
uma coisa antiga, acadêmica, tinha aquele método antigo de copiar "à
fusain" para exercitar a mão. Comecei com o desenho, eu não era
colorista no princípio, fazia cópias de gesso tabém, com sombreamento,
coisas de anatomia que tinha que copiar, conhecer bem.
São Paulo era muito provinciana nas artes?
TARCILA -Ah, era, o gosto geral era pelas paisagens
iguaizinhas à vida, era o reino da natureza-morta também, as
fulgurações do metal copiadas na tela, tão real! Isso não foi
prejudicial pra mim, foi uma fase preparatória. Quando cheguei à Europa
fui logo para a Académie Julien, academia de nus (...) punham o modelo
só cinco minutos diante do artista para ele fazer rapidamente, eu
gostava, até porque já tinha prática.
O Abaporu, com aquela figura deformada, monstruosa, parece coisa de pesadelo...
TARSILA - Engraçado o senhor falar nisso, eu gosto de
inventar formas assim de coisas que eu nunca vi na vida, mas não sabia
porque eu tinha feito o
Abaporu daquela forma. Eu me
perguntava: "Mas como é que eu fiz isso?". Depois uma amiga que era
casada com o prefeito me dizia: " Sempre que eu vejo
Abaporu me lembro de uns pesadelos que eu tenho" e
eu, então, liguei uma coisa à outra, disse que devia ser uma lembrança
psíquica ou qualquer coisa assim e me lembrei de quando nós éramos
crianças na fazenda. Naquele tempo havia muita facilidade de
empregadas, aquelas pretas que trabalhavam para nós na fazenda, depois
do jantar elas reuniam a criançada para contar histórias de
assombração, iam contando da assombração que estava no forro da casa,
eu tinha muito medo, a gente ficava ouvindo, elas diziam que daqui a
pouco da abertura vai cair um braço, vai cair uma perna e nunca
esperávamos cair a cabeça, abríamos a porta correndo nem queríamos
saber de ver cair a assombração inteira. Quem sabe o
Abaporu é um reflexo disso?
A senhora foi a origem do movimento antropofágico?
TARSILA - O Raul Bopp achou que devíamos fazer um movimento
em torno desse
Abaporu, achou esquisitíssimo, ele
gostou muito e depois escreveu um livro interessantíssimo sobre o
linguajar indígena do Amazonas. Todos começaram a dizer que o Oswald é
quem tinha feito o
Abaporu e criado o movimento
antropofágico. Ele aceitou que dissessem que era de autoria dele, achou
interessante.
Assim como o movimento antropofágico tinha relações com as
culturas chamadas primitivas, dos índios, da África etc., o Fernand
Léger, com sua temática de máquinas, fábricas, sociedade moderna, teve
influência em pintura também?
TARSILA - Eu gostava muito da obra dele, fui muito amiga
dele, mas não frequentei o atelier de Léger (...). Eu me inspirei em
São Paulo mesmo, na sociedade fabril, e foi uma novidade naquele tempo,
no Brasil, o que eu fiz. E fui tão bem aceita, que o governo do Estado
comprou a minha obra, sabe, um quadro grande, está em Campos do Jordão.
Veja, fevereiro de 1972.
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BIOGRAFIA
Tarsila do Amaral nasceu
em 1º de setembro de 1886 na Fazenda São Bernardo, município de Capivari,
interior do Estado de São Paulo. Filha
de José Estanislau do Amaral e Lydia Dias de Aguiar do Amaral. Era neta
de José Estanislau do Amaral, cognominado “o milionário” em razão da imensa
fortuna que acumulou abrindo fazendas no interior de São Paulo. Seu pai
herdou apreciável fortuna e diversas fazendas nas quais Tarsila passou
a infância e adolescência.
Estuda
em São Paulo no Colégio Sion e completa seus estudos em Barcelona, na
Espanha, onde pinta seu primeiro quadro, “Sagrado Coração de Jesus”, aos
16 anos. Casa-se em
1906 com André Teixeira Pinto com quem teve sua única filha,
Dulce. Separa-se dele e começa a estudar escultura em 1916 com Zadig e
Mantovani em São Paulo. Posteriormente estuda desenho e pintura com Pedro
Alexandrino. Em 1920 embarca
para a Europa objetivando ingressar na Académie Julian em Paris. Frequenta
também o ateliê de Émile Renard. Em 1922 tem uma tela sua admitida no
Salão Oficial dos Artistas Franceses. Nesse mesmo ano regressa ao Brasil
e se integra com os intelectuais do grupo modernista.
Faz parte do “grupo dos cinco” juntamente com Anita Malfatti, Oswald de
Andrade, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. Nessa época começa seu
namoro com o escritor Oswald de Andrade. Embora não tenha sido participante
da “Semana de 22” integra-se ao Modernismo que surgia no Brasil, visto
que na Europa estava fazendo estudos acadêmicos.
Volta à Europa
em 1923 e tem contato com os modernistas que lá se encontravam: intelectuais,
pintores, músicos e poetas. Estuda com Albert Gleizes e Fernand Léger,
grandes mestres cubistas. Mantém estreita amizade com Blaise Cendrars,
poeta franco-suiço que visita o Brasil em 1924. Inicia sua pintura “pau-brasil”
dotada de cores e temas acentuadamente brasileiros. Em 1926 expõe em Paris,
obtendo grande sucesso. Casa-se
no mesmo com Oswald de Andrade. Em 1928 pinta o “Abaporu”
para dar de presente de aniversário a Oswald que se empolga com a tela
e cria o Movimento Antropofágico.
É deste período a fase antropofágica da sua pintura. Em 1929 expõe individualmente
pela primeira vez no Brasil. Separa-se de Oswald em 1930.
Em 1933 pinta
o quadro “Operários” e dá início à pintura
social no Brasil. No ano seguinte participa do I
Salão Paulista de Belas Artes. Passa a viver
com o escritor Luís Martins por quase vinte anos,
de meados dos anos 30 a meados dos anos 50. De 1936 à 1952, trabalha como
colunista nos Diários Associados.
Nos anos
50 volta ao tema “pau brasil”. Participa em 1951 da
I Bienal de São Paulo. Em 1963 tem sala especial na VII Bienal
de São Paulo e no ano seguinte participação especial na XXXII
Bienal de Veneza. Faleceu
em São Paulo no dia 17 de janeiro de 1973.
Biografia em Tarsila do Amaral
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